O sorvete, uma sobremesa universalmente apreciada, tem uma história surpreendentemente longa e complexa. Embora pareça uma indulgência moderna, suas raízes remontam a milênios, evoluindo desde antigas bebidas geladas até as guloseimas produzidas em massa que conhecemos hoje. Esta evolução não foi impulsionada apenas pelo gosto; foi fundamentalmente moldado pelos avanços tecnológicos e pelas mudanças nas normas culturais.
Precursores iniciais: bebidas geladas e açucaradas
As primeiras formas do que se tornaria sorvete não envolviam bater ou congelar laticínios. Em vez disso, eles se concentraram no resfriamento das bebidas existentes. Já em 4.000 a.C., as elites mesopotâmicas construíram casas de gelo perto do rio Eufrates para armazenar a neve coletada nas montanhas durante o inverno. Esse gelo era usado para resfriar bebidas durante os verões escaldantes, um luxo reservado aos ricos.
Práticas semelhantes surgiram em outras civilizações antigas. Na Atenas do século V a.C., a neve era vendida nas ruas para refrescar o vinho, enquanto os antigos romanos e os imperadores chineses desfrutavam de bebidas geladas e adoçadas. Os chineses até combinaram leite de búfala gelado com cânfora para um doce único. Esses primeiros exemplos demonstram um desejo humano de longa data de combinar temperaturas frias com doçura.
A ascensão do proto-sorvete: a Índia e o Império Mughal
O ancestral mais próximo do sorvete moderno apareceu na Índia do século 16, durante o Império Mughal. Os imperadores enviaram cavaleiros às montanhas para coletar gelo, que foi então usado para fazer kulfi – leite condensado congelado em moldes. Ao contrário do sorvete moderno, kulfi não foi batido, resultando em uma textura mais densa. Essa diferença a torna uma sobremesa congelada distinta por si só.
Experimentos congelados da Europa: sorvetes e receitas iniciais
O encontro da Europa com as sobremesas congeladas começou com relatos de mistura de gelo com sal, o que baixou a temperatura o suficiente para criar misturas semelhantes a sorvetes. Alguns atribuem a introdução destas guloseimas a Marco Polo após as suas viagens pela China, embora outros atribuam o crédito aos comerciantes mouros. Independentemente disso, o sorvete rapidamente se tornou popular entre as elites europeias. Catarina de Médici é frequentemente creditada por introduzi-lo na França no século XVI, embora evidências históricas sugiram que ele já existia lá.
Em meados do século XVII, o rei Carlos I da Inglaterra recebeu “neve congelada” e ficou tão impressionado que ofereceu ao seu sorveteiro real uma pensão vitalícia para proteger a receita. Essas primeiras histórias, embora possivelmente exageradas, mostram a exclusividade da guloseima.
Acessibilidade e Inovação: Séculos XVIII e XIX
Durante séculos, o sorvete permaneceu um luxo. A disseminação da venda comercial de gelo em meados do século XVIII começou a torná-lo acessível a mais pessoas. Na Inglaterra, o imigrante suíço Carlo Gatti revolucionou a distribuição em 1851, abrindo uma banca perto da estação Charing Cross, usando seu próprio poço de gelo cortado no Regent’s Canal.
Agnes Marshall, apelidada de “Rainha dos Gelos”, popularizou ainda mais o sorvete na Inglaterra durante o século XIX. Ela publicou quatro livros de receitas repletos de receitas, deu palestras publicamente e até sugeriu o uso de nitrogênio líquido para um congelamento mais rápido.
As inovações surgiram rapidamente: os carros alegóricos de sorvete surgiram na década de 1870, e o sundae de sorvete nasceu da proibição, no final do século XIX, da venda de refrigerantes aos domingos em algumas comunidades americanas. A primeira menção a um recipiente comestível em forma de cone, chamado “Cornet”, apareceu no livro de receitas de Marshall em 1888, embora tenha sido mais tarde popularizado na Feira Mundial de St.
Produção em massa e a era moderna
O século 20 testemunhou a transformação do sorvete de uma iguaria em um produto básico global. Os avanços tecnológicos na refrigeração tornaram a produção mais fácil e barata. O método de congelamento de panelas, envolvendo máquinas manuais, foi substituído por sistemas automatizados. A invenção do sorvete cremoso reduziu ainda mais os custos ao incorporar mais ar à mistura. Aditivos, como agentes estabilizadores de glúten, prolongam a vida útil.
Hoje, o mercado global de gelados vale entre 105 e 125 mil milhões de dólares anualmente e prevê-se que atinja os 140 e os 200 mil milhões de dólares na década de 2030, com o mercado dos EUA sozinho a gerar entre 20 e 22 mil milhões de dólares por ano. A presença do sorvete está agora enraizada na culinária de todo o mundo, uma prova de seu apelo duradouro.
Das antigas bebidas geladas à moderna produção em massa, a história do sorvete é um conto de engenhosidade, adaptação e do desejo humano universal por uma guloseima doce e gelada.
